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O rufia de volta
10Nov2008 14:10:00
Publicado por: Alfredo

Um dia qualquer, Mark Twain, pouco tempo depois de acordar, provavelmente de ressaca, escreveu (mas parece que já o havia dito a alguém) que “as notícias da minha morte são manifestamente exageradas”. Ia começar assim este manifesto, coisa que acabei por fazer, pese a frase acima referida já ter figurado, inclusivamente, numa festa político/partidária, entre bifanas assadas e ruminantes de cepa duvidosa. Por isso, é só por isso, mantenho a citação, na esperança desmedida de ninguém, inclusive os vociferadores de bifanas, a entendam. Dá-se o caso que não morri. “Dá-se o caso que não morri”, escrevo, talvez um pouco depois de acordar e a confundir ressaca com gripe, enquanto dou umas passadas "Na Patagónia", com o Bruce Chatwin a exclamar “estou farto de dieta de borrego e sardinhas”, ali para a página cento e muitos. Em Patagónia não te vi, dir-me-ia depois Lobo Antunes, acabadinho de escrever 50 páginas sobre a angústia do deserto na planície da insónia, em caderninhos de receitas do Hospital Júlio da Matos (palavra de honra!). Em boa verdade, como escreveu o meu amigo Gabriel “no território da faca a integridade dos sombras é um jogo”. Alguém compreende esta porra? Eu enxergo. E posso provar a existência inexorável das facas e dos punhais, pois os senti na pele, depois de sonhar com o filme “Belarmino”. Ora o território das facas, ou perto, deixou-me no estaleiro uns bons oito meses, alguns ligados à máquina, num traçado de infernal passeio. Quanto a comprimidos e enfermeiras nada a altercar: éramos uma equipa. Há precisamente 8 meses, num campo de batalha (diz-se teatro de operações mas ali não haviam operações algumas, apenas sangue e amizade) que recordo com prazer, fui sangrado e sangrei uns quantos, com a precisão do cirurgião e do debochado. “Às carnes”, avisei. Melhor o fiz. Do campo recordo a sibilina voz da espada e do punhal (mais carrascão), e o grotesco som infalível do corpo a corpo. Matizes de azul e, acho, amarelo, resfolegavam connosco naquele final de tarde. Cães ladravam. E quando a jornada do sol se precipitava para o fim, um fundo laranja orlado a prata, anunciava o parar da contenda. Ainda pensei encontrar-me num daqueles quadros de sala de jantar, mas faltavam os perdigueiros. Eram cães vadios que nos rodeavam. Os tendões ofereciam-nos a vertigem do arco. Antes de cair, senti, como Artaud uns anos antes em Marselha, a alma do rufia a rasgar-se. Mas era a minha. Alfredo



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